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No-ismos

Hoje assisti ao espetaculo de dança que mais me emocionou até hoje: Noism 07, com NINA - Materialização do Sacrificio, no SESC Pinheiros. Foram momentos tao mágicos, tao intensos, que saí do teatro pensando no que eu tinha visto, e pensando no que as pessoas sentiram, e se elas sentiram o mesmo que eu, ou tanto quanto eu.

Uma companhia de dança maravilhosa, com um coreografo super jovem, carismatico, de bem com a vida. A casa estava lotada, tanto no BP como no espetáculo. O corpo como objeto, sem ismos (no-ism), um corpo leve e ao mesmo tempo fisico. Muito lindo! Acho que nunca vi movimentos tao rapidos e limpos.

E o SESC Pinheiros é um lugar que vc entra e sente orgulho por morar na cidade de Sao Paulo, orgulho de ser brasileiro (desculpe o lugar comum). Que lugar fantastico, gostoso, aconchegante. Ficaria lá o dia todo, se pudesse. Fui na "comedoria" (restaurante) e comi pao de tapioca (2, porque nunca tinha comido e é uma delicia), sagu com vinho e tomei suco de laranja organico. Vi 2 exposicoes, uma de fotos e outra de artes plasticas. E ainda tive essa experiencia maravilhosa de NINA.

Ah, e meu almoço foi no Sato, restaurante pops da Liberdade, mas que eu gosto muito de ir, porque a comida é boa e lembra minha infancia, lembra coisas boas, sabe?? E passei um tempo hoje no predio do Bunkyo, com reuniao dificil e fazendo limpeza numa sala cheia de cacarecos (japones tem a mania, ou melhor dizendo, a psicopatia, de guardar todo e qualquer tipo de lixo. Resultado, escritorios que parecem mais deposito de lixo! Xô lixo, vai tudo pra doação!!)

Puxa, desde ontem estou muito, muito triste, chocada e abalada com o que aconteceu no Rio. Tao triste que acho que nao consigo nem escrever a respeito. Eu choro quando vejo as materias na TV, quando penso no caso, quando leio sobre o enterro do menininho. Nao posso ver, preciso desligar desse assunto. Ou fazer alguma coisa a respeito, sei lá. Mas nao sou eu que estou maluca. O mundo é que está maluco. Ou todos nós. Acho que o texto abaixo, do Paulo Coelho (www.g1.com.br) resume muito do que eu penso a respeito. Bjs.


Por quem os sinos dobram


Então estamos nos aproximando cada vez mais do Mal Absoluto. Quando rapazes, em pleno controle de suas faculdades mentais, são capazes de arrastar um menino pelas ruas de uma cidade, isso não é apenas um ato isolado: todos nós, em maior ou menor escala, somos culpados.

Somos culpados pelo silêncio que permitiu que a situação em nossa cidade chegasse a este ponto.

Somos culpados porque vivemos em uma época de “tolerância”, e perdemos a capacidade de dizer NÃO.

Somos culpados porque nos horrorizamos hoje, mas nos esquecemos amanhã, quando há outras coisas mais importantes para fazer e para pensar.

Somos os olhos que viram o carro passar, o medo que nos impediu de telefonar para a polícia. Somos a polícia, que recebeu alguns telefonemas através do número 190, e demorou para reagir, porque o Mal Absoluto parece já não pedir urgência para nada. Somos o asfalto por onde se espalharam os pedaços de corpo e os restos de sonhos do menino preso ao cinto de segurança.

A cada dia uma nova barbárie, em maior ou menor escala. A cada dia algum protesto, mas o resto é silêncio. Estamos acostumados, não é verdade?

Muitos séculos atrás, John Donner escreveu: “nenhum homem é uma ilha, que se basta a si mesma. Somos parte de um continente; se um simples pedaço de terra é levado pelo mar, a Europa inteira fica menor. A morte de cada ser humano me diminui, porque sou parte da humanidade. Portanto, não me perguntem por quem os sinos dobram: eles dobram por ti.”

Na verdade, podemos pensar que os sinos estão tocando porque o menino morreu, mas eles dobram mesmo é por nós. Tentam nos acordar deste cansaço e torpor, desta capacidade de aceitar conviver com o Mal Absoluto, sem reclamar muito – desde que ele não nos toque.

Mas não somos uma ilha, e a cada momento perdemos um pouco mais de nossa capacidade de reagir. Ficamos chocados, assistimos às entrevistas, olhamos para nossos filhos, pedimos a Deus que nada aconteça conosco. Saímos para o trabalho ou para a escola olhando para os lados, com medo de crianças, jovens, adultos. Entra ano, sai ano, mudam-se governos, e tudo apenas piora. O que dizer? Que palavra de esperança posso colocar aqui nesta coluna?

Nenhuma.

Talvez apenas pedir que os sinos continuem tocando por nós. Dia e noite, noite e dia, até que já não consigamos mais fingir que não estamos escutando, que não é conosco, que estas coisas se passam apenas com os outros. Que estes sinos continuem dobrando, sem nos deixar dormir, nos obrigando a ir até a rua, parar o trânsito, fechar as lojas, desligar as televisões, e dizer: “basta. Não agüento mais estes sinos. Preciso fazer alguma coisa, porque quero de volta a minha paz”. Neste momento, entenderemos que embora culpemos a polícia, os assaltantes, o silêncio, os políticos, o hábito, apenas nós podemos parar estes sinos.

Nosso poder é muito maior do que pensamos – trata-se de entender que não somos uma ilha, e precisamos usá-lo. Enquanto isso não acontecer, o Mal Absoluto continuará ampliando seu reinado, e um belo dia corremos o risco de acreditar que ele é a nossa única alternativa, não existe outra maneira de viver, melhor ficar escutando os sinos e não correr riscos.

Não podemos deixar que chegue este dia. Não tenho fórmulas para resolver a situação, mas sou consciente de que não sou uma ilha, e que a morte de cada ser humano me diminui. Preciso parar minha cidade. Não apenas por uma hora, um dia, mas pelo tempo que for necessário. E recomeçar tudo de novo. E, se não der certo, tentar não apenas mais uma vez, mas setenta vezes. Chega de culpar a polícia, os assaltantes, as diferenças sociais, as condições econômicas, as milícias, os traficantes, os políticos.

Eu sou a minha cidade, e só eu posso mudá-la. Mesmo com o coração sem esperança, mesmo sem saber exatamente como dar o primeiro passo, mesmo achando que um esforço individual não serve para nada, preciso colocar mãos à obra. O caminho irá se mostrar por si mesmo, se eu vencer meus medos e aceitar um fato muito simples: cada um de nós faz uma grande diferença no mundo.

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