quinta-feira, janeiro 12, 2012

Coisas que nao dá para explicar

Acho que já comentei sobre isso no ano passado, mas volto ao tema porque afinal, trata-se da profissao que eu escolhi. Como brinquei no outro texto sobre o filme do Selton Mello, a gente tem que fazer o que sabe fazer: o gato toma leite, o rato come queijo, e eu sou jornalista. O Mino Carta comentou que o jornalismo atual está grotesco. E eu concordo, porque o que vemos hoje nao é jornalismo, é sensacionalismo, é como se estivesse vivendo no mundo bizarro e os jornalistas tivessem se tornado seres apaticos que trabalham pela audiencia/acessos/venda de exemplares.

Lógico que eu sou jornalista e quero que meus textos sejam lidos, comentados, observados. Mas eu tenho limites éticos que sigo todos os dias, e que inclusive me dão muito trabalho, porque seria muito mais facil viver nesse mundo sem ter  ter ética: só que aí, eu sinto que não seria mais eu mesma, eu não me reconheceria como pessoa e profissional. E isso porque nao trabalho em nenhum veiculo grande de imprensa, que tem uma responsabilidade e uma pressao muito maiores. Minhas materias nao tem o alcance de alguem que trabalha na Folha ou no Estadao.

No final do ano, me chocou muito a maneira como os jornais trataram a moça que morreu junto com o filho, se suicidou pulando do predio. Porque num momento de muito desespero, muita solidão e sofrimento, ela tomou uma decisão fatal e triste, que afetou toda uma familia.

Por que os jornalistas precisavam estampar o nome dessa moça nos jornais, num momento de luto e tristeza absoluta? Por que eles precisavam mencionar em suas matérias algumas supostas cartas, que foram escritas pela moça num momento de desespero? Aliás, qual a credibilidade que se pode dar a cartas escritas por uma pessoa em total desespero? Por que divulgar isso? Por que correr atrás disso? Qual o resultado que eles esperavam?

Lógico que como jornalista, tendo prazo diario para cumprir, voce muitas vezes nao pensa nas consequencias de suas ações. Nao dá tempo. Mas a pobre familia, lidando com o luto e com o sofrimento, tambem teve que lidar com jornalistas que tentavam obter explicações para algo que é inexplicavel. E ainda terão que lidar com o Google, para sempre, reproduzindo essa historia triste. Tenho pena dessa familia, porque nao vejo sentido na publicação dessa materia, com esses detalhes tristes.

Informar sem medir consequencias é informar? Qual a diferença que isso fez na vida de outras pessoas? E por que esses sórdidos detalhes foram publicados? Simplesmente, porque se o jornalista do jornal A publica o nome da pessoa e os detalhes, e o jornalista do jornal B pensa melhor e nao publica, no dia seguinte, quem vai tomar "carcada" do editor? Sim, será o jornalista que pensou na ética. Por isso, o jornalista nem pensa mais em ética.

Como um dos porteiros do predio falou, nao dava para saber que a moça estava tão deprimida e triste. Alias, as pessoas que estao muito deprimidas às vezes nao conseguem mais pedir ajuda, e quando tomam uma decisao final, elas procuram disfarçar de todas as maneiras, reunindo as ultimas forças que elas tem para nao preocupar as pessoas que estao à sua volta. Isso aconteceu comigo há muitos anos e nao pude ajudar uma pessoa, mas foi porque nao dava mesmo para perceber que por dentro, essa pessoa sentia um vazio imenso, que nao era facil preencher. E eu falhei em perceber, ninguem percebeu, algo que me assombra até hoje.

Sei que nao dava para perceber, mas eu sinto a dor de nao ter sido capaz até hoje. E essa familia vai sentir para sempre, muito mais profundamente do que eu. O que eu prometi para mim mesma é que nunca mais deixaria de ajudar alguem. Quem eu sinto que está com problemas e dificuldades sempre vai encontrar em mim uma palavra de conforto, atenção, carinho. Quanto à minha profissao, acho que o melhor mesmo é me conformar, porque a tendencia é piorar o mundo cao - infelizmente. Bjs.

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