Pular para o conteúdo principal

Homens e mulheres invisiveis

UOL
Estava muito frio. A minha mente, ocupada com alguma besteira, mais um compromisso inutil que tinha marcado. Olhei pela janela, pq ia escolher minha roupa e queria ver como estava o tempo lá fora.

Reparei que tinha alguma coisa ou alguém se movimentando atrás de um carro, do outro lado da rua. Prestei atenção. Foi aí que eu a vi. Era é a velhinha dos cachorros, que eu vejo de vez em quando zanzando pelas ruas do bairro, sempre com os cachorrinhos dela. Já falei dela aqui no blog.

Ela se olhou no espelhinho da Pajero que estava estacionada. Estava com uma saia fina, uma blusa sem mangas, sem casaco, e devia estar sentindo muito, muito frio, porque nesse dia estava tão gelado que eu estava sentindo frio mesmo aqui na segurança e conforto da minha casa. Então ela pegou um copinho de plastico, colocou agua, tomou e deu agua para os cachorros no mesmo copo, depois escondeu o copo e a agua num arbusto. Daí ela sumiu uns instantes. Acho que ela foi para um cantinho fazer xixi. Dai voltou, fez carinho nos cachorrinhos e continuou andando.

Isso tudo durou pouco tempo. Eu fiquei observando ela por uns 5 minutos, até sumirem do meu campo de visão. Como estava olhando aqui de cima, eu pude ver que ninguem olhava na cara da velhinha. Que as pessoas desviavam dela, atravessavam a rua antes de passar por ela, ou ignoravam mesmo. Ela deve ter vindo para essa rua porque tinha um local onde os moradores de rua dormiam, um antigo hospital, que foi comprado e teve a fachada fechada por uns tapumes. Por isso, essas pessoas nao conseguem mais dormir nesse local.

Eu vi ela tentando entrar no hospital, mas o segurança nao deixou. Lá existe uma cobertura, onde deve ter menos vento, mas ele nao deixou ela ficar lá com os cachorrinhos. Ela foi descendo a rua, resignada. Nesse momento, eu, que me considero uma pessoa tão letrada, educada, solidaria, proativa e inteligente, me senti muito envergonhada. Chorei com a minha falta de força. Porque os R$ 10, R$ 20 que eu dou para ela quando a encontro na rua, nao servem nada para ajudá-la em momentos como esse.

Juro que a minha vontade era descer, levar um casaco e convidar a obassan pra tomar um chá quente na minha casa, mas eu admito que eu nao consegui fazer isso. O que o porteiro ia pensar? O que a minha batian ia pensar? O que a minha mãe ia pensar? Eu sei que parece babaquice mas as pessoas iam achar que eu estou louca.E pelos padrões da sociedade, pessoas "normais" nao fazem isso.

Eu tinha um tio que fazia isso, ele pegava meninos de rua, levava pra casa, dava banho, comida, brinquedo. E minha tia achava que ele era doido (e pensando bem, era mesmo...rsrsrs). É triste constatar mas ainda me preocupo com o que os outros pensam de mim. Esse é um ponto que devo me esforçar e ser mais forte.

Alguem precisa fazer alguma coisa por essa velhinha. Mas a grande questão é: "QUEM??". Na verdade, é comodo pra gente pensar que "ALGUEM" deve fazer algo, que o governo deve se responsabilizar, que a prefeitura deve ajudar. A culpa pela falta de ação está sempre recaindo em alguem. A velhinha deve ter varias desordens mentais, depois de tantos anos. Eu a encontro nas ruas desde que eu era estagiaria, e hj sou empresaria, ou seja, fazem muitos e muitos anos. O que fazer por alguem nessa situação?

Um dos meus primeiros trabalhos voluntarios foi levar sopa para moradores de rua. Aquilo foi importante para o meu crescimento. Eu era muito sonhadora e perguntei para uma lider de entidade: "oque podemos fazer para ajudar essas pessoas que estão na rua?". Ela me disse: "sempre que encontrar um morador de rua, tente rezar um Pai Nosso por ele, desejar que ele encontre seu caminho, tenha paz e saúde. Só isso já vai ajudar. Porque a maioria das pessoas os ignora, uma minoria os odeia. Tenha sentimentos positivos por eles, isso vai ajudar".

Procuro seguir desde então o ensinamento que recebi dessa mestra, e lá se vão muitos anos. Quanto ao ódio humano, confesso que é algo que não consigo compreender. Essas pessoas nao tem nada, estão à margem da sociedade, sofrem todos os dias calados, de forma aviltante. Porque existem pessoas tão malvadas, tão sem alma, que matam moradores de rua??

Por exemplo, aquele caso de Caxias do Sul, em que os cachorrinhos ficaram esperando pelo dono que morreu queimado por adolescentes?? Os cachorrinhos tiveram mais amor do que seres humanos!! Isso tudo é tão revoltante e triste que nao tenho palavras para descrever. Como diz o vereador Tripoli, "Quanto mais conheço os humanos, mais eu gosto dos animais". E seguimos nossa vida, vivendo sob aparente normalidade, num mundo cheio de pessoas invisiveis. Precisamos de mais amor no coração. Bjs.

Comentários

  1. Complicado, eu sei... As injustiças do mundo.

    A gente pensa "culpa do governo" (e realmente é)...

    Mas não adianta apenas pensar. A situação não muda se cada um não fizer sua parte.

    E que parte que nos cabe? Bom, não existe resposta pra isso.

    Vai depender do teu coração. Da tua vontade de ajudar.

    De querer fazer esse mundo um lugar melhor, pelo mínimo que esteja ao teu poder.

    Mas se a gente fica apenas no pensar, nada muda.



    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Presos na gaiola

Acabei de ler 2 vezes o livro da Mirian Goldenberg. Muitas reflexoes e inspiração para escrever alguns posts. No livro, a Mirian fala do sociólogo Zygmunt Bauman, para quem existem dois valores absolutamente indispensáveis para uma vida feliz: segurança e liberdade. Segurança sem liberdade é escravidão. Liberdade sem segurança é o caos.


A questão é, como nós, brasileiros, podemos nos sujeitar a viver sem segurança nem liberdade? Esses dias fiquei em Gramado, que é o destino turístico mais seguro do Brasil. Faz muitos anos que nao sentia essa sensação tão maravilhosa e reconfortante de plena segurança. Muita felicidade.


Poder andar na rua tranqüilamente, livre, de dia, de noite, de madrugada, sabendo que nada de ruim pode te acontecer. Tendo a sensação de que tudo está seguro e tranquilo. Sabendo que voce pode ir e voltar para o hotel a pé, sempre em segurança.


O valor disso é incalculável, e os cidadãos de Gramado se orgulham muito de terem uma cidade segura. Pelo que me falaram, qu…

Circularidades

Passei mais de dois anos sem atualizar esse blog, não sei exatamente o motivo, mas sempre sentia vontade de voltar a postar. Quando leio meus posts antigos, posso perceber claramente o quanto eu cresci e me desenvolvi em todos os sentidos nesses anos de distância. E acho que isso é o mais bacana de mantermos um blog: poder elaborar um registro do que a gente pensa e sente, ao longo de muitos e muitos anos. Tenho até vergonha de alguns posts muito bobinhos, mas no geral, esse blog refletiu como eu penso e como me movimento no mundo.
A vida anda muito completa e feliz para mim em todos os campos: pessoal, profissional, emocional, familiar, espiritual, amoroso, enfim, acredito que consegui alcançar um equilíbrio muito buscado. Continuo trabalhando pra caramba como sempre, mas refletindo comigo mesma, creio que sempre fui assim e sempre serei. Gosto mesmo de trabalhar e de me envolver em diversos projetos ao mesmo tempo! Agradeço ao universo por ter permitido tanta felicidade e coisa boa…

Reuniao com tubarão

Eu sou uma pessoa muito meticulosa, pratica e organizada. Quer que eu odeie uma pessoa, mesmo que seja só um pouquinho? Simples, é só essa querida pessoa marcar uma reunião comigo de ultima hora, no mesmo dia. Porque a minha agenda é TODA feita com antecedência, eu planejo minha semana, planejo cada dia e o que vou cumprir em cada dia em termos de metas e objetivos. Gosto de dar um "check" nas tarefas cumpridas no fim do dia. Sou assim: sou planejadora. Tenho plano A, B e C pra tudo.
Nesse cenário tao perfeitamente calculado, um compromisso de ultima hora altera toda minha rotina mental, e daí, acabo extremamente irritada. Entao se eu for realmente obrigada a ir em uma reuniao assim (sim, porque meu mundo não é cor de rosa, e assim como vc, tenho que engolir um monte de sapos), eu vou sair com pedras na mão, irritada, seca e nada disposta para uma negociação. 
Esse mês tive uma reuniao assim. Eu fui lá praticamente obrigada. E foi uma ocasião bem ridícula, pq a pessoa só chamo…