domingo, outubro 14, 2012

Homens e mulheres invisiveis

UOL
Estava muito frio. A minha mente, ocupada com alguma besteira, mais um compromisso inutil que tinha marcado. Olhei pela janela, pq ia escolher minha roupa e queria ver como estava o tempo lá fora.

Reparei que tinha alguma coisa ou alguém se movimentando atrás de um carro, do outro lado da rua. Prestei atenção. Foi aí que eu a vi. Era é a velhinha dos cachorros, que eu vejo de vez em quando zanzando pelas ruas do bairro, sempre com os cachorrinhos dela. Já falei dela aqui no blog.

Ela se olhou no espelhinho da Pajero que estava estacionada. Estava com uma saia fina, uma blusa sem mangas, sem casaco, e devia estar sentindo muito, muito frio, porque nesse dia estava tão gelado que eu estava sentindo frio mesmo aqui na segurança e conforto da minha casa. Então ela pegou um copinho de plastico, colocou agua, tomou e deu agua para os cachorros no mesmo copo, depois escondeu o copo e a agua num arbusto. Daí ela sumiu uns instantes. Acho que ela foi para um cantinho fazer xixi. Dai voltou, fez carinho nos cachorrinhos e continuou andando.

Isso tudo durou pouco tempo. Eu fiquei observando ela por uns 5 minutos, até sumirem do meu campo de visão. Como estava olhando aqui de cima, eu pude ver que ninguem olhava na cara da velhinha. Que as pessoas desviavam dela, atravessavam a rua antes de passar por ela, ou ignoravam mesmo. Ela deve ter vindo para essa rua porque tinha um local onde os moradores de rua dormiam, um antigo hospital, que foi comprado e teve a fachada fechada por uns tapumes. Por isso, essas pessoas nao conseguem mais dormir nesse local.

Eu vi ela tentando entrar no hospital, mas o segurança nao deixou. Lá existe uma cobertura, onde deve ter menos vento, mas ele nao deixou ela ficar lá com os cachorrinhos. Ela foi descendo a rua, resignada. Nesse momento, eu, que me considero uma pessoa tão letrada, educada, solidaria, proativa e inteligente, me senti muito envergonhada. Chorei com a minha falta de força. Porque os R$ 10, R$ 20 que eu dou para ela quando a encontro na rua, nao servem nada para ajudá-la em momentos como esse.

Juro que a minha vontade era descer, levar um casaco e convidar a obassan pra tomar um chá quente na minha casa, mas eu admito que eu nao consegui fazer isso. O que o porteiro ia pensar? O que a minha batian ia pensar? O que a minha mãe ia pensar? Eu sei que parece babaquice mas as pessoas iam achar que eu estou louca.E pelos padrões da sociedade, pessoas "normais" nao fazem isso.

Eu tinha um tio que fazia isso, ele pegava meninos de rua, levava pra casa, dava banho, comida, brinquedo. E minha tia achava que ele era doido (e pensando bem, era mesmo...rsrsrs). É triste constatar mas ainda me preocupo com o que os outros pensam de mim. Esse é um ponto que devo me esforçar e ser mais forte.

Alguem precisa fazer alguma coisa por essa velhinha. Mas a grande questão é: "QUEM??". Na verdade, é comodo pra gente pensar que "ALGUEM" deve fazer algo, que o governo deve se responsabilizar, que a prefeitura deve ajudar. A culpa pela falta de ação está sempre recaindo em alguem. A velhinha deve ter varias desordens mentais, depois de tantos anos. Eu a encontro nas ruas desde que eu era estagiaria, e hj sou empresaria, ou seja, fazem muitos e muitos anos. O que fazer por alguem nessa situação?

Um dos meus primeiros trabalhos voluntarios foi levar sopa para moradores de rua. Aquilo foi importante para o meu crescimento. Eu era muito sonhadora e perguntei para uma lider de entidade: "oque podemos fazer para ajudar essas pessoas que estão na rua?". Ela me disse: "sempre que encontrar um morador de rua, tente rezar um Pai Nosso por ele, desejar que ele encontre seu caminho, tenha paz e saúde. Só isso já vai ajudar. Porque a maioria das pessoas os ignora, uma minoria os odeia. Tenha sentimentos positivos por eles, isso vai ajudar".

Procuro seguir desde então o ensinamento que recebi dessa mestra, e lá se vão muitos anos. Quanto ao ódio humano, confesso que é algo que não consigo compreender. Essas pessoas nao tem nada, estão à margem da sociedade, sofrem todos os dias calados, de forma aviltante. Porque existem pessoas tão malvadas, tão sem alma, que matam moradores de rua??

Por exemplo, aquele caso de Caxias do Sul, em que os cachorrinhos ficaram esperando pelo dono que morreu queimado por adolescentes?? Os cachorrinhos tiveram mais amor do que seres humanos!! Isso tudo é tão revoltante e triste que nao tenho palavras para descrever. Como diz o vereador Tripoli, "Quanto mais conheço os humanos, mais eu gosto dos animais". E seguimos nossa vida, vivendo sob aparente normalidade, num mundo cheio de pessoas invisiveis. Precisamos de mais amor no coração. Bjs.

Um comentário:

  1. Complicado, eu sei... As injustiças do mundo.

    A gente pensa "culpa do governo" (e realmente é)...

    Mas não adianta apenas pensar. A situação não muda se cada um não fizer sua parte.

    E que parte que nos cabe? Bom, não existe resposta pra isso.

    Vai depender do teu coração. Da tua vontade de ajudar.

    De querer fazer esse mundo um lugar melhor, pelo mínimo que esteja ao teu poder.

    Mas se a gente fica apenas no pensar, nada muda.



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