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Voce tocaria o sino?

O sr. S me deu esse livro, "Para Além da Terra Desolada sem Fim" - 11 de Março - 24 poemas e fotografias sobre a vida e o mundo após o grande terremoto seguido de tsunami ocorrido no leste do Japão em 11 de março de 2011, de Keiko Takahashi, com tradução do Masato Ninomiya.

O tsunami em março de 2011 mexeu muito comigo e com todos que trabalharam aqui no Brasil nos diversos eventos e campanhas, tentando levar nosso sentimento e fazer algo pelas pessoas que sofriam do outro lado do mundo. Chorei e me emocionei muito. Com certeza é um livro que vale a pena ler. Tem um lado poético, triste e melancólico, mas ao mesmo tempo, de muita esperança.

A autora fala sobre como as pessoas devem ter se sentido aterrorizadas e inseguras no momento em que o desastre acontecia. O pavor, o medo, o fim. Cada uma dessas pessoas tinha uma história preciosa de vida, amor, sonhos. A obra relata a dor dos que se foram, mas também o sofrimento e a angústia de quem permanece lá, que é misturada ao sentimento de reconstrução, de "gamman" (aguentar o sofrimento), tão tipico do povo japonês.

"Nessa terra desolada, que de súbito surgiu,
foram deixadas
numerosas pegadas
das almas de nomes desconhecidos

Nos sentimentos sedimentados
em diversas camadas
encontram-se gravadas
as incontáveis lamentações.

O que elas vislumbraram,
e o que desejaram?
O que tiveram de desistir
e do que se arrependeram?"

Ela conta a história do sr. Koshida, líder voluntário da brigada de incêndio da vila de Otsushi, distrito de Ando-Akahama. O sr. Koshida mandou seu colega, sr. Hiuchi, tocar a sirene do posto da brigada, para alertar todos os moradores da vila sobre a iminência do tsunami, ou seja, todos deviam sair de suas casas e buscar lugares mais altos. Só que depois do terremoto, a cidade estava sem luz, e o alarme não funcionava. O que fazer?

O sr. Koshida então ordenou que o sr. Hiuchi e todos os companheiros da brigada ajudassem a evacuar os moradores para as montanhas. E ele pegou o sino de incêndio, que normalmente nao era utilizado, e foi para a torre e ficou lá observando o mar e tocando o sino, para que as pessoas soubessem que deviam sair de casa. O repicar do sino ecoou por toda vila. O sr. Hiuchi disse que era um som triste. Os moradores foram para lugares mais altos e estavam protegidos. O tsunami chegou meia hora depois do terremoto. O sino só parou de tocar no momento em que o tsunami varreu a cidade. O sr. Koshida nunca mais foi visto.

Também há relatos de pessoas que se atiraram na correnteza de lama para tentar salvar pessoas sendo levadas pelo tsunami. Funcionários de prefeituras que ficaram no local para prestar socorro para quem precisava. O sr. Koshida deve ter visto a onda se aproximar, e mesmo assim, foi corajoso e permaneceu lá tocando o sino, para alertar e salvar os moradores da vila.

O que leva o ser humano a ser capaz de se sacrificar pelos outros? Porque cada uma dessas pessoas tinham a própria vida e a própria familia para resguardar e proteger, mas não quiseram deixar de estender a mão para quem precisava, colocando suas próprias vidas em perigo. Isso pra mim mostra que a gente não pode perder a fé na humanidade. Isso me dá esperança e força por estar viva nesse momento.

Porque a mesma espécie humana que mata por um par de tênis é capaz de sacrificar sua própria vida por um desconhecido. Temos esse algo indecifrável, que transcende a compreensão humana: todos nós possuimos essa luz, essa alma verdadeira. E na vida, devemos buscar nossa luz, revelar o potencial da nossa alma e ajudar a humanidade.

"Felicidade sem preocupação.
Sucesso sem fracassos.
Realização sem adversidades.
Paz sem angústia.

Ainda que se busque tanto,
tudo isso
não passa de ilusão.

Todas as vidas 
carregam inúmeras dores
e enfrentam provações
desconhecendo suas causas

Há vozes que só se ouvem,
e verdades que só são enxergadas,
em meio a essa dor

A luz brilha justamente no meio das trevas
O homem aprofunda o próprio ser
através das suas dores."

Essa semana meu tio faleceu de repente. Teve 4 paradas cardíacas de um dia pro outro. Num dia estava vivo, no outro morreu, no dia seguinte foi enterrado. E ele não aproveitava nada da vida. Me fez parar pra pensar e refletir, "afinal, o que levamos da vida"? Dinheiro, casa, carro, roupa? Não, nada disso. O que levamos da vida é a nossa própria vida, nossa história. Eu quero ser uma pessoa que não hesitaria em tocar o sino, como o sr. Koshida, que deve estar no céu e com certeza salvou muitas vidas naquele triste dia. Bjs.

Comentários

  1. Sinto muito pelo seu tio... Realmente, as vezes a morte nos pega de surpresa (e quem está te dizendo isso, é alguém que já passou por essas situações algumas vezes).

    Mas enfim, sobre o que você escreveu, é ralmente algo a se pensar... O desprendimento, o querer bem ao próximo de algumas pessoas, que mesmo nesses momentos de perigo, acabam sacrificando a própria vida pelo bem dos outros.

    Não sei bem se eu faria isso... Talvez sim, talvez não, mas espero nunca ter que saber.



    PS: Eu perdi uma amiga naquele tsunami... Alguém com quem eu mantinha contato a quase cinco anos. (O pior de tudo, acho que para a família dela, é que o corpo nunca foi encontrado). - É meio estranho pensar nisso... Mas faz parte da vida, certo? Ninguém sabe o dia de amanhã, e cada um tem sua devida missão nesse mundo. É isso o que eu acredito.

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