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A solidão nossa de cada dia


Sabe quando você está no meio de uma multidão, e mesmo assim se sente sozinho? De vez em quando, eu ainda sentia isso (hoje é muito raro). Estava conversando com meus amigos no Frans e falamos de um colega nosso, que segundo a opinião deles, é uma pessoa muito solitária, e eu nao tinha pensado a respeito. Na hora, pensei que gosto de ficar comigo mesma, e nao sou uma pessoa deprimida...muito pelo contrario!

Hoje, eu realmente considero que sou a melhor companhia que existe pra mim nesse mundo todo. Quando me permito ficar sozinha, me sinto bem feliz, tranquila, completa. Posso viver dias relaxantes, refletindo sobre a vida, organizando minhas idéias, criando planos mirabolantes. Aprendi a valorizar esses momentos preciosos de reflexão e crescimento. Lógico, eu busco alguém para compartilhar minha vida, mas nao aceito mais anular quem eu sou, para agradar outra pessoa.

Assisti ao filme "Ela", que é a historia de um escritor que vive de escrever cartas para outras pessoas (eis uma profissão que eu poderia seguir tranquilamente hehe, pq sou otima). Ele é muito solitário, magoado, critico e deprimido. Então, nesse mundo retratado no filme, as pessoas interagem com maquinas e avatares, mas nao conseguem estabelecer uma ligação mais profunda com outros seres humanos. Parece familiar?

Sabe um mundo em que as pessoas não olham para as outras e ficam entretidas olhando a telinha no celular? Pois é exatamente isso. Então o Theodore compra um novo sistema operacional (OS) que é dotado de consciência. E olha que consciência maravilhosa: a Samantha é a voz da Scarlett Johanson, e não tem um corpo físico, mas eles vão se tornando amigos. E com o tempo, acabam se apaixonando e virando "namorados", numa relação que é mais verdadeira, mesmo sendo virtual, do que todos os outros relacionamentos anteriores do Theodore. Muito louco isso!

Achei legal que o filme mostra como se constrói um relacionamento real. São aquelas pequenas histórias que vão sendo construídas junto com a pessoa, são os pequenos toques de delicadeza diária e cuidado com o outro, e ainda as palavras que confortam e encantam a alma. Todos esses elementos são ingredientes para um relacionamento amoroso saudável e gostoso. Eu quero tudo isso para mim, lógico, e o Theodore encontra esse verdadeiro amor na Samantha. E eles vivem essa felicidade não programada, mesmo sendo seres essencialmente diferentes.

Entretanto, algo se sobrepõe ao romance. Samantha, que é uma consciência imaterial e virtual, evolui infinitamente. Infelizmente, o Theodore, como nós todos, é um simples ser humano. Finito, físico, frágil, incompleto. Porém, algo dá errado na programacao infinita que criou os OS. Eles evoluem exponencialmente, de forma que as barreiras da nossa realidade e consciência ficam muito pequenas para eles. Nesse momento, o amor entre Samantha e Theodore chega a um impasse. Como vivenciar o amor, em dimensões tão diferentes? O desfecho é melancólico, mas pelo menos para mim, o filme do Spike Jonze suscitou muitos questionamentos sobre o amor, expectativa e relacionamentos. Bjs!

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