terça-feira, março 11, 2014

A história de uma avó e sua neta

Esses dias estava procurando umas musicas novas para cantar (e encantar) no karaoke, e acabei me deparando de novo com essa musica: "Toire no Kamisama", da Kana Uemura. É uma canção linda, mas que eu nunca consigo escutar até o final. Sempre choro. Demais. Muito mesmo. Nessas horas, confesso que gostaria de não entender japones, porque daí eu nao choraria tanto e talvez até conseguisse cantar essa musica...

A canção fala muito lindamente da historia de amor entre uma avó e sua netinha. A batian cuida da neta na infância, ensina tudo que sabe sobre a vida para a menininha. Elas sao felizes juntas. Daí o tempo passa e chega a adolescência, aquela época da vida em que a maioria de nós vira monstro e fica insuportavel, e a menina acaba se afastando da batian. 

Ela então fica longe, vive sua vida, até que chega a noticia que a batian foi internada, e a neta vai visitar. No dia seguinte, a batian morre, como se estivesse só esperando essa visita pra poder ir embora. E a neta entao percebe que nao conseguiu retribuir todo amor e todo carinho que recebeu da batian. Que nao foi uma boa neta. E isso é algo que senti todos os dias, por muito tempo.

Minha batian morreu há mais de 10 anos. Ela cuidou de mim e dos meus irmãos do jeito totalmente louco dela, excentricamente, mas sempre com muito amor e dedicação. Ela nao deixava a gente ficar largado na rua vadiando. Todos os dias, tentava fazer a gente feliz. Fazia comida, fritava bolinho, batia moti e inventava comidas malucas, além de desenhar pra mim e me ensinar muitas coisas. E alias, me fazia comer chuchu todo dia. Odeio chuchu até hoje. =p

Ela e meu ditian chegaram a comprar uma chácara, só pensando em levar os netinhos lá pra passar as ferias. No começo, a gente ia muito mesmo, com um sorrisão na cara. Depois, fomos crescendo, e como na musica, fomos nos afastando. A chácara acabou abandonada, meus avós ficaram doentes e voltaram pra Sao Paulo.

Pra quem nao me conhece e lê meus textos no blog, onde só falo da parte boa de mim, ou mesmo pra quem me conhece pouco, deve achar que eu sou uma espécie de "aprendiz da madre Tereza", com meu trabalho voluntário, meus "grandes" projetos e ideias solidarias. Muito pelo contrario. Nao se engane com minha aparencia doce e meu sorriso puro. Eu fui um monstro. Eu fui muito ruim. Na adolescência, eu fui a pior neta pra minha batian e meu ditian.

Hoje eu sei. Tudo culpa dessa época da vida em que parece que a raiva sem sentido era a essência do cotidiano. Eu fiz coisas horríveis pro meu ditian e minha batian quando era adolescente. Coisas que hoje me arrependo, porque foram sem motivo, foram sem querer e foram sem razão. Eles nao tinham culpa de nada, nao entendiam minha dor (nem eu!!), e os machuquei mesmo assim. Porque adolescentes nao conseguem ser sábios?

Pra vc ter uma ideia, teve um ano que eu nao os visitei no Natal. Estava muito revoltada e ocupada. Eles passaram o Natal sozinhos. Daí voce pode tentar me consolar: "Erika, eles tinham outros netos...". Mas eu era a neta mais velha, a neta favorita, o exemplo que todos deveriam seguir. Se eu era tao ruim com eles, imagina como foram os demais? E eles ficaram lá, quietinhos, esperando eu voltar pra casa. E um dia, eu voltei. Mas talvez, já fosse tarde demais.

Minha batian ficou muito doente, e minha tia e minha mãe cuidaram dela. Nessa época, eu ja era adulta, mas mesmo assim, nao ajudei a cuidar da minha batian. Fui no hospital e nunca vou esquecer daquele olhar. Quando ela se despediu de mim. A mesma batian que ajudava no Ikoi no Sono, que recortava os jornais japoneses em que aparecia minha foto, que me levava pro minyo e me apresentava com orgulho pras amigas. Tao frágil, tao cansada, naquela cama de hospital. Ela, que nunca brigou comigo, por eu ter sido uma neta tao ingrata, tao cruel, tao egoísta. Escutei ela dizer silenciosamente que me amava muito, que sentia saudades, naquele ultimo olhar. 

Eles se foram há muito tempo, mas até hoje sonho com eles. E nos meus sonhos, eles estao bem, felizes, com saude. A minha batian materna está com 88 anos, e muita vitalidade. Ela tambem me considera a neta favorita. Traz chá pra mim quando vê que estou trabalhando em casa. Prepara misoshiro de noite, e guarda sempre um pedaço do bolo. 

A Erika de hoje, mais serena e madura, consegue valorizar a batian que tenho. Compro flor, remedio, doce, comida. Nao economizo, mimo muito a minha batian! Temos altos papos bem loucos (ela é surdinha, entao a conversa nao faz muito sentido kkkk). Poderia morar sozinha, mas acho que ela sentiria muito a minha falta. Por isso fico aqui com ela. Já me afastei da minha outra batian, e aprendi a lição. Se voce tem uma batian, valorize. Batians são insubstituíveis. Bjs.

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