quarta-feira, janeiro 22, 2014

O essencial que é invisível aos olhos

Imagina por um momento, não ter um lugar para voltar no final do dia. Nao ter uma cama para deitar. Nao ter comida na mesa. Alias, nao ter nada, nem mesa, nem cama, nem casa. Não ter uma família para te apoiar. Ser ignorado todos os dias, horas e minutos. As pessoas desviando de você na rua, fingindo que nao te enxergam, sem disfarçar a repulsa.


O morador de rua é um ser invisível aos olhos do mundo. Passamos por eles, caídos na rua, pedindo esmola, desviamos o olhar, e não sentimos nada. O termo exato para isso é "cisão psíquica". Afinal, nossos olhos veem tanta injustiça, tanta coisa ruim, que acabamos nos acostumando ao mal e bloqueando nossos sentimentos, anestesiando nossas sensações e emoções para (sobre)viver na sociedade.


Eu comecei meu trabalho voluntário ha quase 15 anos, levando sopa para moradores de rua. A vida vai, a vida vem, e me afastei desse trabalho, e acabei me dedicando mais para as causas da cultura japonesa e da comunidade nikkei. Hoje, tantos projetos e eventos depois, senti a necessidade pessoal de fazer algo pelas pessoas que mais precisam. E fui ajudar na ceia de Natal dos moradores de rua, da ONG Anjos da Noite.


Uma coisa muito bacana é que cheguei lá sozinha, sem conhecer ninguem, na manha de sabado antes do Natal (sou uma pessoa corajosa né). É sempre muito bom quando as pessoas me tratam como a voluntária que eu sou. Sem privilégios, sem cargos, sem distinção: uma simples voluntaria como todos os outros que estavam la.


E fui cortar cenoura, picar salsinha, lavar panela, abrir panetone, montar kits e trabalhar bastante com o pessoal, o dia todo. Foi cansativo, corrido e maravilhoso! E a marmita hoje é mais sofisticada: arroz, feijão, seleta de legumes, batata e frango cozido. Comi dessa refeição e gostei muito do tempero, aprovadissimo rsrsrs....parabéns para a equipe da cozinha!!


De noite, fomos distribuir a comida na rua da Cantareira, perto do Mercadao. Fui com o pessoal acompanhando o carrinho de comida e doações, e fiquei impressionada com a lindeza no coração dos voluntarios. Uma delas sabe o nome de todos os moradores da região, onde eles dormem, qual está machucado. Ela pegou remédio e passou na perna do moço, sem hesitar. Ele estava meio bêbado, entao nao entendia direito o que se passava, nao podia agradecer. Mas ela ajudou mesmo assim, sem julgar, sem pensar, sem criticar.


É muito legal essa parte, de nao criticar nem tentar tirar as pessoas da rua. A ONG entende que cada pessoa tem seu caminho: se ela quer sair da rua, eles ajudam. Se ela nao quer sair da rua, eles ajudam do mesmo jeito, sem tentar evangelizar ou convencer ninguém da sua opiniao. Ajudar pura e simplesmente pelo prazer de ajudar alguém. E no final, quem é mais ajudado somos nós mesmos, os voluntarios. Porque essa energia boa, de amor puro, de sentimento bom, acaba influenciando nossas vidas para (muito) melhor...


Percebi que os moradores de rua são muito carentes de atenção, de um minutinho de conversa, um sorriso amigo. Voltamos para o ponto de encontro, e lá apareceu o sr. Denis. Ele é baiano de Irecê, filho da dona Maria, e está morando na rua há 3 anos.


O sr. Denis trabalha catando latinhas e faz artesanato com esse material. Ele me pediu para segurar os 3 sacos de latinhas que ele estava carregando (realmente muito pesado), para me mostrar que nao era "vagabundo". Ficamos conversando um pouquinho, estava com outro voluntário. Ele resolveu que queria nos presentear. Nada sofisticado, mas o sentimento dele era de oferecer alguma coisa pra gente, o que achei muito bonito. Ganhei um cinzeiro e uma mini-latinha, feitos por ele. já ganhei muitos presentes na vida, mas esse é especial. Seu Denis, nao vou me esquecer de voce.


Depois disso, fomos para o Pátio do Colégio, entregar mais refeições, doações e brinquedos. Uma coisa que me impressionou foi a educação e a ordem, todos foram respeitosos com os voluntarios e nao houve bagunça nem tumulto. E constatei de perto como estamos falhando enquanto sociedade. Muitos velhinhos e muitas criancas lindas morando na rua. O que estamos fazendo com o nosso mundo? O que estamos fazendo com as nossas criancas?


Ficamos la ate meia-noite, eu e o Y. Estava cansada e resolvemos ir embora, mas soube que o pessoal do Anjos da Noite ficou ate as cinco horas da manha distribuindo refeição na rua. Eu creio que nao existem palavras para definir a lindeza de tanto amor.


No dia 24, voltamos lá para ajudar. Eu fiquei de novo nas mesmas multi-funções, e o Y passou o dia todo cortando frango (coitado, mas ele adora frango!). De noite, ficamos muito cansados e nao fomos pra rua, porque tinha bastante gente pra ajudar. Enfim, foi uma experiencia muito boa e pretendo voltar mais vezes, porque eles preparam as refeições e vao pra rua todos os sábados.


Quando eu era pequena, lembro que meu tio trazia criancas de rua para a casa dele, dava banho, comida, brinquedos. A minha tia e as minhas primas nao entendiam bem. Eu tambem nao. Através dessa experiência, acho que consegui me aproximar do que o meu tio sentia. Temos tanto em nossas vidas, tantas oportunidades, possibilidades e sonhos. Por isso, a nossa missão é ajudar quem precisa de mais apoio. Uma lição de vida e amor. Bjs.

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